24 agosto 2017

Cópias Tímidas


Havia uma grande chance de que aquele meticuloso plano acabasse se revelando um bilhete só de ida para alguma lista de procurados de crimes contra o meio ambiente. Afinal de contas, Priscila estava indo na contramão do que sua carteira, ideologia, e até mesmo força de vontade de estudar diziam no que se referia a fazer xerox e até mesmo seus professores notaram que ela era a única que aparecia na sala com todos os capítulos devidamente fotocopiados de absolutamente qualquer coisa que eles sequer mencionassem. Talvez até houvesse uma pequena aposta na sala dos professores sobre se ela tinha ido pegar a reprodução das páginas de receitas de bolo do Jornal da Tarde durante a ditadura (sim, para ambos).

E o que poderia impulsionar uma aluna a resolver ter em mãos todos os textos complementares do semestre? Havia seriados do Netflix para serem maratonados, tablets e internet para poupar as florestas mundiais e aproximadamente sete horas de jogo até ela finalmente platinar Final Fantasy XV. Além do quê, deve-se admitir, suas notas já eram boas sem que suas moedas de R$0,10 fossem destinadas a mais papel e menos Freegels (quem ainda compra freegels? Priscila. Um pequeno vicio desenvolvido na oitava série.). Era justamente esse tipo de pensamento que a fazia roer um pouco mais a já torturada unha na frente do espelho do banheiro, enquanto tentava observar seu reflexo no meio das diversas frases de efeito falando que ela era linda, perfeita e que deveria ligar para Lucas se quisesse seu TCC editado.

Seus cachos castanhos estavam um pouco mais secos do que gostaria, mas ela havia esquecido o óleo na casa da mãe e a necessarie de emergências capilares estava em algum canto do apê do pai. Mas o corte emoldurava seu rosto bem e ela até que havia disfarçado maravilhosamente a aparência de quem havia tentado se concentrar naquelas malditas xerox até á 1h da manhã. E hoje seria o dia D; ela colocou seu vestido da sorte, com bolsos estratégicos na estampa de gatos no espaço, e ela finalmente conversaria com o “carinha da papelaria”.

Sério. Eis o apelido que suas boas duas amigas deram para razão da vida dela ter se tornado um amontado de páginas e taquicardias. Ela preferia dizer que ele era o “Gustavo, aluno de Engenharia que trabalha na papelaria porque faz parte do Diretório Acadêmico e isso é parte suas responsabilidades e, não Fabi, não vou simplesmente pedir o Facebook dele.

Obviamente, ela queria o Facebook dele.

Conversar pela internet seria tão simples. Sem contato visual. Com a possibilidade de prolongar o tempo socialmente aceitável entre respostas para a casa dos minutos, ao invés do nano segundos. Porque cada vez que ela tinha uma maldita conversa com um estranho, era como seu cérebro estivesse com um daqueles malditos temporizadores de jogos de xadrez, marcando a lentidão que levava para suas palavras saírem da boca – uma vez que ela pensava em mil respostas, só que a idéia de as dividir com um desconhecido a apavorava. Especialmente um desconhecido com sardinhas no rosto, camisetas cheias de referências nerds e bom gosto para a playlist de músicas tocada no DA.

Logo, ela iria xerocar cada página disponível até conseguir juntar coragem o suficiente para se apresentar para o seu-crachá-diz-que-seu-nome-é-Gustavo, nem que isso lhe custasse todo o dinheiro do estágio. E, junto com seu vestido da sorte e um hálito de Freegels, ela saiu do banheiro esperando que o espelho estivesse falando a verdade com a bendita frase de “você é linda, diva”.

***
My Eyes Have Seem You do The Doors tocava pelo cubículo nanico da sala da Papelaria, lotadas até o teto de canetas BIC, marca textos neon e cadernos básicos. Não havia muitos matérias disponíveis dentro da própria universidade, mas nada disso importava de fato – ali, atrás do balcão, usando uma camiseta de Everybody Hates Joffrey Baratheon, estava um cara com uma constelação de pintinhas no rosto e um cabelo naquele tom que ninguém sabe dizer se é loiro ou ligeiramente avermelhado. Ele usava-o ligeiramente comprido, caindo um pouco abaixo das orelhas, apenas o suficiente para atrapalhar o que estivesse lendo.

Não que Pri ficasse muito tempo pensando sobre como seus fios de cabelo caiam sobre os olhos castanhos. Isso seria assustador, e ela não era assustadora. Ela era apenas uma garota. Que gostava de olhar para aqueles fios de cabelo e se perguntar se eles cheiravam á que tipo de shampoo – mas que atire a primeira pedra quem já não foi um tolo apaixonado uma vez na vida.

Especialmente quando o dono de dito cujo cabelo loiro-diabolicamente-avermelhado levanta os olhos de seu livro (It, do Stephen King - deu para ver quando ele colocou no balcão) e sorri levemente de lado ao vê-la entrar pela porta.

“Xerox?”

'Pense. Responda. Respira. Nessa ordem.'

“A-ha. Pasta 12. Professora Rita, Jornalismo.”

“Sem problemas. Eu já pego para ti.”

O sorriso dele causa um mini ataque cardíaco. O vestido da sorte de repente parece apertado na área do busto, mas ela sabe que foi seu coração que expandiu. Frio na barriga, dedos do pé se contraindo e as palmas suadas são todos usuais. Por que Jim Morrison parece tornar tudo sensual? Por que Gustavo parece se mover sensual, mesmo sendo apenas um garoto? Por que um garoto, sendo apenas um garoto, se torna “O” garoto quando tem um sorriso de canto de boca, camisetas inteligentes, malditos fios de cabelo que devem com certeza cheirar a shampoo e…

“Aqui. Sabe” – ele se inclina um pouco no balcão. O ritmo cardíaco aumenta junto do baixo do The Doors – “Ou tu tem os piores professores dessa faculdade ou é a melhor aluna deles. Tu vem aqui quase todos os dias.”

Não.

O roteiro era mencionar a camiseta.
               
            Na cabeça, nos sonhos e delírios, era sempre a camiseta. Priscila não preparou uma resposta que possa ser dada em menos de 2 segundos sobre seus dotes ou não como estudante.
                
            Já se passaram 3 segundos e o maldito sorriso de canto de boca continua lá, mas os olhos com sobrancelhas super grossas por cima parecem preocupados.
              
           4 segundos. É hora de falar alguma coisa, ela pensa. Qualquer coisa. A primeira que vier na mente. Seja lá o que for. ‘Esse é o universo te dando uma chance, Priscila! Seu destino te chama! Os gatos espaciais vieram buscar os aliens para você e te premiar com algo! Os aliens, Priscila! Os aliens!’
             
           5 segundos.
                              
                   “Hmmm.”
             
          ‘Parabéns, cérebro. Me lembre de tirar você da lista de órgãos que poderiam ser doados, porque nem em uma realidade onde isso seja possível quero impor esse destino terrível a outra pessoa’
             
           6 segundos e o sorriso se desfez um pouco em Gustavo. Há uma sensação de combustão desagradável dentro de todo o coração de Pri; essa foi a primeira conversa que não se baseou em cumprimentos e direto na pasta para pagamento que tiveram. Só há uma coisa que pode ser feita, mas ela pede toda a força interna que há naquele corpo que parece desejar se esconder em algum canto e não sair mais.
                             
                “Eles não são tão ruins ao ponto de merecer ir para Westeros, nem nada assim.”
              
           Quando Gustavo sorri e começa a perguntar sobre Game of Thrones, o apertado dela sobre sua pasta relaxa e o território se torna um pouco mais conhecido, ao menos por enquanto. Ela fala sobre as mortes mais dolorosas, como colocou pequenos desenhos de “Segure a Porta” com o Hodor no prédio do pai, e ele coloca a mãos e bagunça o cabelo descrevendo a dor cada vez que pensa que o Tyrion não sobreviva. O assunto continua tempo depois que as cópias estão prontas, e ele as grampeia e entrega rindo sobre alguma piada de meme.
                              
                    “Me adiciona no Facebook. É raro achar alguém que conheça a teoria dos livros tão bem assim para conversar”.
            
            Ela aperta as folhas quentinhas junto ao coração, enquanto se pergunta se seria muito cedo para já procurar o nome escrito no post it pelo celular.

***

                               
                       “Finalmente falou com a menina das cópias?” – a cadeira do computador dos fundos gira, com Caio tirando seus fones de ouvido e parando de mexer no Tumblr, com uma cara de quem já estava sem paciência para o colega fazia pelo menos duas semanas.


             Não havia mais lados naquele sorriso de Gustavo, pois lhe tomava o rosto inteiro e fazia com que as sardas fossem figurantes para um sol enquanto ele via a solicitação de amizade aparecer em seu celular. E ao som de ‘Hello, I Love You’, ele aceitou; quem sabe um dia contaria que ela estava pagando metade em todas suas xerox? Bah. Valia a pena se falir um pouco por certas paixões; mesmo as que o faziam quase perder a voz.   

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