11 junho 2015

#MariFala: Porque Ingrid Nilsen Sair do Armário é Incrível

Harry Potter não era feliz vivendo em um armário abaixo da escada dos Dursley; aquela barreira de humilhação e negação de direitos básicos, imposta pela presença de pessoas que tinham medo dele ser diferente, não poderia ser melhor representada. Para alguém cuja sexualidade fugiu da heteronormatividade também existe um armário imposto tanto pela sociedade preconceituosa quanto pelo medo de se expor como diferente e ser isolado de seu meio por isso.

Conheço em primeira mão a sensação de sair do armário, tendo assumido minha bissexualidade para a maior parte da minha família há alguns anos já - e para o resto do mundo em um vídeo que pode ser assistido no meu canal. Logo, já experimentei a sensação da pressão de saber que não posso dividir um lado meu com algumas pessoas e meus avôs, já passei por um ataque de homofobia quando ao lado de uma ex namorada... Mas, em muitos aspectos, essa questão me pegou de maneira extremamente leve porque eu nunca estive num armário para mim mesma.



Nunca pensei que o que sentia por garotas, assim como por garotos, era vergonhoso para minha pessoa. Meu medo, quando ele existia, era muito mais da exposição do que da não aceitação por mim mesma. Me apaixonei por meninas, as beijei, as amei, sem nunca me negar a chance de ter esses sentimentos. Como pessoa profundamente romântica até a última célula do meu corpo, não consigo conceber a dor de se oprimir contra esses sentimentos maravilhosos de paixão e se apaixonar. Infelizmente essa tortura é conhecida de muitos outros indivíduos LGB (Lésbicas, Gays, Bissexuais), que reprimem sua sexualidade até de si mesmos.

Esse infeliz caso é o de uma das megas gurus americanas de beleza, moda e lifestyle, Ingrid Nilsen, conhecida como Missglamorazzi.  A mega Youtuber, com quase 3,5 milhões de inscritos, tomou nessa semana uma atitude que reverberou da maneira mais incrível pelo Youtube a fora: saiu do armário publicamente e para si mesma.

No vídeo de quase 20 minutos ela explica como passou 25 anos reprimindo seus sentimentos, com a sensação de que ela não merecia ser feliz por ser gay, tentando seguir relações heterossexuais porque é o que esperavam dela. Como a acompanho a anos, posso relatar como ela teve uma relação extremamente pública com outro Youtuber e como engatou em outro namoro não muito tempo depois... E que algo sempre parecia off quanto a ela em um relacionamento. Não clamo que meu radar-gay aptou, pois jamais suspeitei. Apenas olhava para ela e pensava que havia algo no olhar dela que não era compatível com o sorriso em fotos (quantos de vocês também não me conhecem pelo olhar? É o que ganhamos com anos acompanhando o trabalho de algumas pessoas).

É fácil agora entender as atitudes dela naquela época: enquanto eu, como alguém bi, consigo me apaixonar tanto por homens como mulheres, uma pessoa homossexual como a Ingrid pode sentir afeto e até amar alguém do sexo oposto - mas não de maneira romântica e sem atração sexual. São sentimentos fraternos que, embora maravilhosos e importantes, não suprimem a necessidade humana do contato sexual e romântico que a atração e paixões proporcionam.

Não tentarei explicar por mim mesma os sentimentos que ela e tantos outros gays do mundo sentem de de culpa, de auto flagelação mental, de depressão, de desespero, de impotência e tantos outros que seriam impossíveis de listar. Se souber inglês, recomendo ver o vídeo e saber por si mesmo a história dela - até porque meu ponto principal nesse texto não é parafrasear-la, e sim contar um pouco sobre o porque essa ação extremamente corajosa é incrível.

Já é difícil sair do armário como uma pessoa privada, mas existe uma dose de coragem inimaginável para uma pessoa pública se colocar sobre os trilhos do trem e chamar para si o que se é no que diz respeito a orientação sexual. Existe a chance de perder sua carreiras (no caso dela, o que poderia garantir que os 3 milhões não iriam sumir e ela perder seu ganha pão no YT? Claro que 3 milhões é muita gente, mas posso garantir que esse medo com certeza passou a cabeça dela). Existe o fato de que milhares de pessoas se acharão no direito de criticar, de colocar para baixo. Claro, há também o apoio: mas ele é o que torcemos por, e não o que achamos que virá... Medo é algo poderoso.

Esse vídeo trouxe a tona, então, uma pessoa extremamente corajosa e a primeira representante LGB entre as top 10 do Youtube Global no setor de Moda e Beleza. Isso significa que existe alguém na mídia, em um veículo moderno, contemporâneo e que só se expande, que está lá mostrando que ser lésbica é normal - e que você pode ter sucesso, ser querida, ser amada, ser feminina, ser divertida, saber cozinhar, gostar de coisas delicadas, gostar do que você bem quiser, e ainda assim gostar de meninas. Quebra estereótipos e dá representatividade para milhões de meninas e meninos não apenas sobre o papel feminino e masculino na sociedade vs. sexualidade, mas também se torna um farol de esperança para quem está passando pelo que ela passou.

Como fã, como mulher, como pessoa com uma orientação sexual diferente do padrão hetero, me sinto cheia de um orgulho gigantesco e esperança de que ainda nascerá o dia em que não existirão mais histórias tristes de como alguém pensou que não merecia ser amado por querer um amor não hetero. Eis um grande obrigada à Ingrid Nilsen por quebrar uma grande barreira na internet - e uma maior ainda para si mesma. Que os próximos passos da vida dela tragam todo o amor que ela julgou jamais merecer e mais uma boa dose. Para ela e para todos.

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2 comentários

  1. Mari, que texto mais tocante e maravilhoso.
    Não conhecia ela, mas vi no instagram alguém avisando você e fui correndo ver o vídeo.
    Amei o texto, a maneira delicada que você escreve e trata esse assunto, que nós sabemos não ser nada fácil de abrir para sociedade.
    Um grande beijo minha linda.

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  2. Muito bonita a homenagem que fez, Mari.

    Acompanho a Ingrid há tempos e fiquei sem reação ao ver o vídeo dela. Não por preconceito, mas por ter ficado chocada com as coisas que ela dizia a respeito dela mesma, sobre ela não se achar digna de ser feliz e coisas do tipo.
    Eu demorei muito para entender (se é que eu entendi) como ela mesma se sabotou por medo, se é que era medo e o tanto que esse 25 anos foram complicados para ela...
    Entretanto, fiquei feliz porque ela se aceitou como ela é. Por mais que seja importante a aceitação dos outros, acho que a aceitação de si mesmo é a mais importante, sabe?

    Espero sinceramente que ela encontre alguém que possa fazê-la feliz e que ela passe os outros anos da vida dela sendo verdadeiramente feliz, sem se esconder dela mesma...

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