03 junho 2015

Carta do Mês: Enxergando Seus Monstros

Recentemente me deparei com um trabalho espetacular no Tumblr, criado pelo artista ZestyDoesThings. Em uma série que balançou seriamente meu coração, ele retratou como monstros diversas doenças psíquicas, dando forma e descrição para diagnósticos cujos termos as vezes são tratados muito levianamente, quase como uma brincadeira para quem não sofre deles ou acompanha alguém próximo que sofra, ou com uma aura de ignorância ao redor que é difícil de dissipar. Entrei no tumblr dele avida para ver a criação dele para meus monstros; aqueles nomes que meus psiquiatras escreveram em papéis, que estão na bula dos meus remédios, que vieram me dar a paz de um tratamento e o estigma de uma condição crônica: ao ver uma criação artística representando algo para o qual não tive nome por mais de duas décadas, olhei para aquela criatura-a-lá-Pokemon e sorri. Olá, meu monstro.


Não é para qualquer um que podemos abrir nosso espírito ao ponto de mostrar suas rachaduras, suas quebras, seus segredos. E se você possui um monstro logo ao seu lado, pode sentir as vezes que àqueles que conhecem o nome dele não conseguem desassociar a sua imagem à imagem do outro ser - aquele que faz parte de ti, abraçando sua cintura possessivamente, falando sem pausas e respiros no pé da sua orelha ou fazendo sua cabeça ir para onde parece que não tem como sair. Particularmente, demorei muito para assumir que havia o tal ser justamente pelo medo dessa associação: eu ser a doença, e não ela ser parte de mim. Com o papel passado, o tratamento e a representação que encontrei em figuras de apoio, como amigos, familiares e até mesmo personalidades que assumiam publicamente um diagnóstico com o mesmo nome que o meu, passei a colocar meu monstro na coleira: enquanto para alguns ele continua invisível, escondido como os comprimidos que não deixo de carregar para não esquecer, para outros ele se tornou apenas mais algo de mim.

A partir do momento que aceitei que tinha um monstro, ele se tornou menos assustador. As vezes sinto que ele é tão assustado quanto eu e as vezes sinto que ele é meu amigo: duas sensações contra as quais luto, pois não quero enxergar tudo na doença e nem doença em tudo. Há muito de mim que é saudável, equilibrado - e essas partes convivem com as que não são, ajudam a trata-las, acalma-las quando necessário e dar uma injeção de animo quando ele é preciso. Duas cabeças dentro da minha própria, lutando por dominância e dormindo ao mesmo tempo. Independente do estado de latência ou de atividade, conheço aquela criatura agora e não tenho medo do seu nome. O detalhe é que descobri no processo que um nome carrega mais do que apenas um medicamento, mas também um preconceito; por isso, escolho com cautela e as vezes até mesmo percebo logo de cara para quem posso nomear meu resoluto companheiro ou não.



Saber que se tem uma condição que jamais passará, uma doença para a qual não existe alta, apenas estabilidade, é assustador e pode gerar dentro de nós o maior dos monstros: a Desesperança que se alimenta dos demais. Por isso, nesse mês, minha mensagem é para encorajar você a falar o nome do seu monstro na frente do espelho: seja ele uma condição psiquiátrica ou não, curável ou não. Cumprimente seu monstro. Descubra se ele pode ser derrotado para sempre, ou tente descobrir como se manter saudável apesar dele caso não seja. Mas, acima de tudo, admita para si e perceba que ter um monstro não é sua culpa e não é motivo de vergonha, por mais que seja algo que cause muito desgostos na sua vida.

Nem todos enxergarão nossos monstros, mas nos devemos enxerga-los todos os dias para poder viver com eles. Pois sobreviver à eles já é difícil o suficiente quando o enxergamos, mas se torna quase impossível quando continuamos a nos forçar ao escuro da negação. Diga oi pro seu monstro hoje. Com o tempo, espero que ele te assuste muito menos.

Com todo meu amor,
Mari



Cheque o tumblr do artista para ver todas suas interpretações sobre os diversos Monstros Reais que ele representou. Foi uma experiência maravilhosa para mim, e espero que seja para você também.


Comente com o Facebook:

6 comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. Olá Mari <3
    Adimiro muito você, a conheci uns anos atrás, através de vídeos e me conquistou,desde de lá a sigo até hoje, não apenas pelo o que ensinava mas com seu jeito de ser,você de fato me inspirou. Mesmo que não me conheça e eu não a conheço pessoalmente quero dizer que tenho um enooorme carinho por você, quero que saiba que não precisa conviver com seus monstros, há soluções e vida sem monstros, viver apenas de alegria e paz , de verdade, estes monstros aparecem apenas quando se esta vazio, quando se falta algum, mesmo que tente procurar preencher, com tanta coisas, mas nunca se satifaz, nunca de fato se torna feliz e se sente bem cem por cento, pois este vazio só pode ser preenchido por Deus, ele é capaz de nos fazer feliz, cuidar da gente e jamais deixarmos conviver com monstros,digo isso pois eu tinha também "monstros" para aturar,eu a entendo, mas hoje vivo bem, feliz, posso ter problemas e dias ruins, mas mesmo no auge da guerra eu tenho paz. Sei que sou uma qualquer pra ti mas quero que saiba que pode contar comigo e com certeza com Deus. Ele te ama de verdade e vê seus sofrimentos, ele quer te ajudar, e faze-la feliz , viver sem monstros.

    Um beijo querido . Te gosto muito e torço por você.

    ResponderExcluir
  4. Oi Mari!

    Muito inspirador teu post. Mostra para gente como é dificil viver na negação, que falar "ah eu não tenho isso, é coisa da minha cabeça" ou "Ah isso é uma fase da minha vida" e o problema vai te consumindo de uma tal maneira que você perde o controle. Realmente é muito importante enfrentar aquilo que te impede de viver plenamente e ser feliz, quando assumimos o nosso monstro, tomamos o primeiro passo para melhorar.

    Beijinhos :3

    woinblack.wordpress.com

    ResponderExcluir
  5. pode parecer clichê, mas realmente sei como é ter monstros dentro de si... não é uma tarefa fácil porque muitas vezes esses monstros nos assustam grandemente... sabe Mari, conhecer seu blog foi algo que particularmente tem me ajudado bastante... você me inspira seja no seu modo de viver como nos looks de lolitas que foi outra coisa que mudou minha vida consideravelmente. Ser lolita me ajudou a aceitar mais esses monstros que vivem em mim, mas confesso que se não existissem esses monstros, talvez eu não seria quem eu sou hoje de fato.
    Enfim, seu texto foi maravilhoso e me fez pensar em tantas coisas que ainda não fiz, por medo dos meus monstros pessoais que me assombram de vez em quando, seu texto me motivou a tomar novas decisões novas metas e tentar aceitar melhor certas coisas, apesar de sempre haver dias turbulentos, haverá também dias de paz, até longos talvez.
    obrigada por ser essa pessoa maravilhosa, um dia ainda irei abraçar você e dizer "você é maravilhosa, e me ajudou em muitos momentos, muito obrigada", porque esses são meus mais sinceros sentimentos.
    com carinho Anne

    ResponderExcluir
  6. Como sempre você sempre fala o que eu preciso ouvir <3 Tenho passado por uns momentos muito difíceis na minha vida, sabe? Coisas que estão acabando com a minha vontade de fazer tudo que era a minha razão. Por sorte, eu ainda não fiquei com vontade de desistir do meu blog, o que tem me dado muita força pra continuar.

    Eu acho que já sei quais são os meus monstros, mas gosto de chamá-los de força maior, porque fica muito mais bonito de dizer, rs.

    Hoje, agora pouco, fiz um post no meu blog falando sobre estar bem e fazer alguma coisa pra poder superar isso, rs. Já é um começo, né?

    Beijos.

    ResponderExcluir

Copyright © 2014 - marianasantarem.com.br - Todos os direitos reservados. LAYOUT E ILUSTRAÇÃO POR KÊNIA LOPES. PROGRAMAÇÃO POR SUGAR DANCE.