05 fevereiro 2015

O Encontro Com o Outro | Reflexões Sobre a Depressão

Quando se está com depressão, por mais que hajam diferenças entre seus tipos e como afetam as pessoas, acredito que é quase uma regra geral que nos sentimos diminuídos perante os outros. No meu caso essa diminuição ia mão a mão com um complexo de culpa e de insuficiência: não fazer o necessário pelo outro, não ser boa o suficiente e até mesmo culpa por ter essa doença. Acontece que a medida que vou trabalhando em mim mesma essas questões, na terapia e no dia-a-dia, mais começo a enxergar não apenas a mim mesma com outros olhos - começo a ver as demais pessoas através de lentes menos viciadas também.

Sim, há aqueles que nos colocarão para baixo, cuja presença é tóxica ou que simplesmente não aceitarão todas nossas vertentes. Mas há também uma maioria que, se abrirmos os olhos, encontraremos aos poucos ao nosso redor: o amigo que pode passar meses sem nos ver, mas ainda oferece seu colo. O estranho no metrô que elogia algo em nossa aparência ou quem sabe o livro que estamos lendo. O pai que deixa de lado seus modos costumeiros para se abrir as circunstâncias de seu filho. O bebê que sorriu em sua direção. Quanto mais subo nesse poço, mais rostos gentis aparecem ao meu redor: faces que não estão me vendo como frágil pela condição da depressão, mas sim como forte por estar encarando-a. Expressões gentis ao meu redor de quem nem sabe o que se passa, mas de alguma maneira oferece um sorriso quando peço licença para passar ao lado.

Sei muito bem - e me dói profundamente - que não são todos os que dividem da minha sorte de ter companhias físicas ao seu redor. Embora possamos trabalhar em encontrar aqueles que irão permanecer conosco não importa o quê, acho que o começo dessa jornada é mais difícil em uma esfera pessoal: envolve abrir mão das nossas culpas e aceitar que o outro (ou talvez dizendo melhor: o outro que tem sua humanidade ativa em si) não vê nossos defeitos como nós vemos.

Nessas últimas semanas ocorreram comigo dois encontros que me mostraram que, independente do que tenha ocorrido comigo pelos últimos dois anos, ainda possuo em mim tanto a capacidade de encontrar pelo caminho pessoas novas, quanto que ainda há a Mariana que gosto em mim ao ponto de ser reconhecida após quase 12 anos. A felicidade que essas situações me trouxeram não foi por ter me sentido com vaidade pelo reconhecimento, e sim por perceber depois que houve em mim naturalmente uma confiança e uma explosão de sentimentos positivos naquela situação. Essas sensações não vieram de fora para dentro, e sim irradiaram no meu interior de uma maneira completamente natural. Foi uma demonstração pessoal de que ainda estou aqui, de que ainda tenho tempo, gentileza e magia pela minha frente.


"Não é infantil se apegar a esperança, na realidade é difícil, muito, muito difícil." Mas vale a pena.


Entendo a dificuldade de sair de casa quando se tem medo do que pode haver lá fora, tanto para te encontrar quanto para ser encontrado. Mas, quando se sentir okay, continue se dando a chance de ver o mundo: não deixe o cinismo que acompanha essa tortura de alma se apoderar de ti. Alguns dirão que continuar acreditando nos outros é o caminho mais rápido para se machucar: minha experiência me diz que seguir crendo e tendo fé que existe muita gente e muitos encontros por ai que são positivos só tem a somar nas possibilidades maravilhosas que a vida ainda aguarda.

Respeite seu tempo, mas não perca a fé a esperança. Lembre-se que ainda existe por ai pessoas que piscarão um olho para você e te levarão para uma deliciosa memória de quando você ficou quieta por alguns instantes e se deixou estar no bom momento. Esses momentos bons ainda existirão; sozinha, com outras pessoas, de várias maneiras, de vários jeitos. Tenho fé nisso. E tenho fé em você e na sua capacidade de continuar acreditando também.

Com todo meu amor,
Mari

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9 comentários

  1. Palavras lindas Mari. Quando tive depressão, desacreditava em mim. Achava que não existiria momentos bons, e que não conseguiria sair daqueles pensamentos que me corroiam por dentro. Só que uma vez, com meu coração aberto, uma senhora muito gentil e de um coração enorme disse que ela acreditava em mim, e que tinha um lindo futuro pele frente. Depois minha mãe me mostrou o filme o Segredo, e eu pouco a pouco sai do fundo daquele poço. Alguns dias são mais difícieis, outros mais fáceis. Infelizmente não tenho fisicamente tantas pessoas que posso contar sempre e me abri por inteira, mas as que tenho conservo com muito amor.Quando leio seus textos, me sinto acolhida e me sinto sortuda por te acompanhar a tanto tempo. Beijos minha amiga linda, e obrigada por tudo e seus textos sempre.
    http://sabrinaikeda.blogspot.com.br/

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  3. Mari,
    que lindo ver o quão bem você esta lidando com tudo isso, fico muito feliz por você reconhecer a força que sempre existiu em você. Se precisar de algo é só chamar, não nos conhecemos mas sinto como se fosse sua amiga, e amigas se ajudam não?! Um beijo e continue na subida desse poço, que logo, você verá o lindo campo ensolarado que existe fora dele!

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  4. Mesmo quem não enfrenta de fato a depressão certamente tem momentos de menos auto confiança e mais medo e fragilidade. Tenho certeza que suas palavras ajudam mais gente do que você espera, Mari.
    www.issoaquiloetal.wordpress.com

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  5. Mari, eu tive depressão. Isso aconteceu por 2 vezes e acho que terei que tonar remédio por um loooongo tempo. Takvez ad eternun. Eu não ligo. Não tenho saudade de mim doente. Eu pedia tofos os dias para morrer, com toda a sinceridade do meu coração. Eu sou do tipo que não tem coragem de se matar (sim, eu acho coragem alguém tirar a vida sem saber o que realmente a aguarda do outro lado ou nesmo se realnente existe esse outro lado), muito pelo contrário: eu ne colocava em situações de risco para que outrem fizesse isso por mim deliberadamente ou não. Foi sim um longo processo para chegar onde eu estou agora. Eu tive que ter muita, mas muita paciência. A cura ou o controle dessa doença é lenta. Hoje eu sinto o chão seguro sob os meus pés, mas inúmeras vezes senti dando um passo no vazio. Eu me sentia num mar revolto, agarrada apenas a um pedaço de pau podre, no escuro. Depois de muito tempo na escuridão, amanheceu. Depois me jogaram uma boia, depois de muito tempo, um bote. Encontrei um bloqueador solar boiando... Depois choveu e eu pude beber água. Depois eu cheguei em terra firme. E eu sei que vc entendeu a minha metáfora. Eu desejo a sua felicidade, Mari. E espero que as pessoas entendam de uma vez por todas que isso não é frescura. É doença e mata. E desejo que as meninas/mulheres sejan mais solidárias e amigas umas das outras. Mais sororidade, lindas! Já chega de carrascas nos julgando.

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  6. Não sei se cheguei a ter depressão, mas houve uma época em que eu não tinha motivação nenhuma pra sair da minha cama. Iria me arrumar, sair e seguir em rumo a um colégio onde não queria estar e onde haveria pessoas que eu não gostava. Eu ia e voltava apenas porque era obrigada. Por muito tempo, eu apenas segui aquela rotina, sem qualquer vislumbre de uma luz no fim do túnel. Pra piorar, mesmo aquelas amizades de longa data que eu pensava serem verdadeiras foram provando-se cada vez mais frágeis. O que me fez seguir em frente foram as músicas com mensagens positivas, filmes inspiradores, e mesmo os seus textos e seus vídeos, Mari. Então tudo que eu tenho a fazer é agradecer por todas as vezes que você compartilhou suas experiências, que nos presenteou com palavras de incentivo ou só disse "estou aqui por vocês". Com certeza, todos esses momentos me ajudaram a superar a época que provavelmente foi a mais sombria na minha vida até agora.

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  7. Sou diagnosticada com depressão há aproximadamente 5 anos e me trato desde então, mas já era depressiva antes. Agora estou em uma fase muito melhor, voltei a sorrir, a sonhar ,a me vestir bem, a querer sair, mas estes anos todos foram extremamente difíceis e solitários. Ainda é, na verdade, mas vamos aprendendo a lidar com tudo isso.
    Eu falo abertamente sobre minha depressão e meu tratamento no blog que é para que mais pessoas possam se sentir unidas e saber que não são as únicas que passam por isso e que todos iremos superar. Meu último texto foi exatamente sobre como, com minha melhora, passe a superar coisas que antes eu achava jamais superar e como é maravilhoso quando vamos nos perdoando, perdoando os outros, sendo nós mesmos.
    Isso que vc está passando agora é muito difícil, não deixe ninguém diminuir sua dor, mas não se deixe afundar nela também. Precisando de alguém para conversar sobre a experiência, pode contar comigo. Espero que tudo dê certo pra vc!E vai dar!
    Bjos, Dayane.

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  8. Oh Mari, você não imagina como esse texto me deixa tão feliz e tão triste ao mesmo tempo! Tenho depressão (e vários outros transtornos psicológicos, para ser honesta) faz mais de 6 anos e sei bem como é passar por isso, sempre tenho vários altos e baixos (onde em alguns momentos consigo conviver com isso e levar uma vida normal e em outros chego a não conseguir sair de casa e até parar no hospital) e também sei como é ter pessoas que te colocam para baixo (ou não te levam a sério e falam que tudo só é drama ou uma fase e que você está exagerando) e ler textos como os seus com certeza me fazem ter um pouquinho mais de esperança (o que sempre é muito difícil) na vida. Na verdade ver os seus vídeos ou ler os seus textos em geral já fazem eu me sentir melhor, você sempre passa uma energia muito positiva e faz eu me sentir como se fosse sua amiga e te conhecesse há anos, me sinto muito acolhida mesmo estando distante... e me deixa muito feliz saber que existam pessoas tão mágicas como você no mundo hehe. E o que me deixa triste é justamente saber que você esteja passando por um momento tão difícil, porque essa doença (e doenças psicológicas no geral) é algo que eu realmente não desejo pra ninguém. Me corta o coração saber que alguém possa se sentir assim... espero muito que você consiga se sentir melhor e continuar inspirando as pessoas como você sempre fez ♥

    Bjos~

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  9. Que lindo Mari, n sabia que vc tb sofria disso, é bom ter alguém para dizer palavras assim, tenho depressão e transtorno de ansiedade a quase 3 anos e provavelmente vou sempre tomar remédio por isso. Que vc consiga continuar sempre bem e consequentemente tb possa nos dar palavras de conforto e inspiração. :*

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