02 fevereiro 2015

Carta do Mês: Fevereiro

Fevereiro sempre foi o mês das voltas as aulas - mesmo que as aulas de verdade só fossem começar depois do Carnaval, agora era o momento de sentir apreensão sobre se suas amigas estariam na mesma sala esse ano, se o alvo da paquera se sentaria próximo... E, se você é qualquer coisa como eu, o medo marcante se haveria um desencontro nas amizades, se passaria algum intervalo sozinha ou mesmo se você era diferente demais. 

Se hoje em dia abraço as minhas diferenças, desde o gosto por metal e por modas alternativas até minha sexualidade, escolha de dieta e cores no cabelo, meu eu adolescente morria de medo de tudo isso. Fui uma criança mais solitária, que não mantinha amizades tão facilmente por sempre me envolver justamente com aquele tipo de "amiga-inimiga" que toda mulher sabe que existe desde as mais tenra idade. Quando comecei a "pertencer" a um grupo, quis ter certeza de que iria me misturar; posso não ter cortado tudo que me fazia individual, mas certamente optei por guardar secretamente muitos dos meus gostos e vontades porque sabia que não seriam aceitos por quem me cercava.

Meu eu de 16 anos e seus enormes brincos de argola. 

Quase todas minhas roupas fora da escola eram pretas, pois acreditava que por gostar de música pesada deveria mostrar isso o tempo todo com camisetas de banda e coturnos (pois é!). Meus namorados sempre eram mais velhos, então me cobrava que deveria me vestir mais sexy do que menininha. Ao mesmo tempo, deveria tentar ter algo em comum com as meninas com que andava e por isso usava brincos bem longos que, mesmo lindos, chamavam para o que acreditava deveria parecer. Praticamente toda minha estética era ditada pelo que todo mundo mais gostaria, o que era fácil de digerir, o que era fácil gostar. Queria que fosse fácil gostar de mim, sem estranhamentos. 

Apesar de sempre ter sido muito assertiva sobre opiniões e idéias na hora de defender um ponto de vista, de ficar do lado de quem era mais fraco, muitas foram as vezes em que me podava antes de podar qualquer um. Aceitava as diferenças alheias, mesmo que com medo de a mera aceitação ser um indicio de que havia em mim tantos impares, e negava o que não queria que ninguém mais soubesse. Ser julgado não é fácil, e adolescentes são alguns dos seres mais cheios de preconceitos que existem por ai; a maioria com medo de suas próprias diferenças, diga-se de passagem.

Gostaria de não ter perdido tanto tempo procurando ser igual. Gostaria de ter tido mais coragem de falar com quem já era taxado como diferente. Gostaria de ter trocado o termo dever por querer e ter abraçado mais meus erros e acertos, experimentado comigo mesma e com meus sonhos desde essa idade. Sou grata por ter passado por essa pressão de me encaixar porque hoje sei o valor de me dar a liberdade de ser eu mesma - mas meu conselho para a Mariana Santarem de 15 anos seria começar mais cedo a se amar ao invés de amar o que os outros mandam. 

Nessa volta as aulas, espero de coração que vocês entrem em suas classes trazendo vocês mesmas à vista. Quem você é mudará muito, isso posso garantir, mas se dê a chance de viver suas diversas facetas e inspirações. Hoje sei que sempre haverá pessoas que se inspirarão pela sua diferença e que partilharão o incomum contigo, mas é preciso dar a chance para que essa energia se expanda em você e continue se transformando e te guiando. Pertencer à um grupo é ótimo - mas jamais será tão bom quanto pertencer à si mesmo. 

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9 comentários

  1. Mari minha eterna gêmea *-*.
    Sempre que leio seus textos, me arrepio do quanto nós somos parecidas. Fui uma criança/adolescente solitária, sempre fui presa dentro de mim pelos meus medos, pela necessitade de me enquadrar a um padrão do qual eu nunca pertenceria, seja por meus gostos musicais, pela minha sexualidade, ou por simplesmente ser diferente. Sofri momentos terríveis no colégio, como você mesma disse, por adolescentes que tem medo de si próprios e que hoje vejo aqueles que me julgaram e condenaram, assumindo tudo que era criticado e machucado. Passar por tudo me amadureceu, e tenho orgulho de dizer que ainda assim não tenho amargor na vida. Só me arrependo de não ter olhado com mais carinho para eu mesma mais cedo. Obrigada por existir. Você é muito querida e uma amiga que encontro como gêmea de alma. Eu acredito muito nisso.

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  2. Adoro quando você escreve esses textos que dão força ao diferente (ou não) e à auto aceitação. É algo muito importante, mas também muito difícil, principalmente na época da adolescência. Acho que quase todo mundo passou por momentos solitários e de auto descoberta.
    www.issoaquiloetal.wordpress.com

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  3. Agora não sei se meu comentário foi ou não :S
    Enfim, tinha dito que às vezes acho que você tem uma bola de cristal ou algo do tipo para acertar as aflições dos corações alheios. Obrigada por compartilhar o texto mari.
    Tenha uma semana linda ♥

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  4. O que mais me surpreende quando você toca nesse assunto é como existem outras pessoas que se identifica tanto com você (nesse sentido), e eu inclusive sou uma delas! Eu leio suas palavras e elas ecoam em lembranças pessoais, e não me sinto tão sozinha por ter passado por situações semelhantes.
    Este ano estou bastante inspirada em ser quem eu sou independentemente. Apenas isso, "independentemente". E com certeza você me inspira muito quanto a isso. Muito obrigada <3

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  5. Mari, sua linda!
    Que texto maravilhoso! Realmente a liberdade de sermos nos mesmos e de nos aceitarmos é algo maravilhoso de se alcançar. Vejo muitas pessoas seguir tendências sem ao menos gostarem, sei que experimentar coisas diferentes é algo bom, mas deixar de ser você para agradar outros poda sua possibilidades de ser feliz. Muito rótulos pré-fabricados e propagandas dizem o que fazer, o que ser e como se vestir etc. É realmente maravilhoso você tocar neste assunto e ser um exemplo de alguém que é mega feliz como é. Além de receber admiração de pessoas que só te conhecem pelos vídeos e no blog. Você realmente é inspiradora, Mari!
    Ressurgiu como fênix, hein!? Que bom te ver tão mais segura e feliz!
    Desejo toda felicidade e como você diz "tenha um dia mágico"!
    beijos

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  6. Queria que alguém pudesse dizer isso pra mim em outro momento da minha vida. Quando era adolescente e bem insegura também... Mas é bom ler isso agora e entender que tem gente que também passou por isso ou pensar que muita gente que precisa ouvir essas palavras poderá ler seu texto e se sentir mais confortável.
    Lindo texto, Mari, como sempre.
    Beijo grande,
    Ana

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  7. MARI CAI DA CADEIRA! ESTUDAMOS NA MESMA ESCOLA!!!!
    OMG >.< NÃO ACREDITO. É por isso que você tem o mesmo prof. que eu add!
    Não consegui nem terminar de ler o texto >.<
    Eu sofria com tudo isso lá... e por ser estranha ganhei até uma fama não muito legal lá.... me formei em 2009. Você se formou quando? Não acredito que existe alguém tão legal como você naquele lugar... se eu soubesse...

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  8. Mari, amei tanto esse texto que compartilhei no meu Facebook e tudo. Me identifiquei muito com tudo o que você escreveu. Passei muito tempo da minha vida (essa fase, principalmente) querendo me encaixar. Foi uma libertação descobrir que o diferente é bom e existem outros wallflowers por aí pra nos fazer companhia.
    Você é uma linda! Te acompanho desde 2008 (até já te entrevistei uma vez, não sei se lembra) e torço muito pra você seja muito feliz, viu?
    Beijos!

    www.taryzottino.com.br

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