01 junho 2014

Gatilho

Pode ocorrer com qualquer tipo de memória que você guarde secretamente dentro dos confins normalmente ignorados do seu cérebro: a batida de carro que quase aconteceu, a frase que falaram na pior hora, o sorriso que deram naquele último adeus. O gatilho é puxado e, antes que se possa conter-lo, sua boca se comprimi, ou seus dedos se fecham, ou seus olhos tremem. As vezes a ativação de uma memória bloqueada é um processo extremamente doloroso, especialmente para quem já viveu algo cujo maior pesadelo é ser revivido. Outro punhado de ocasiões, no entanto, é o sabor agridoce sem tanto trauma que preenche sua mente com as lembranças que costuma esconder de si mesmo.

O primeiro gatilho foi puxado durante o almoço. Não há nenhuma vez em que consiga comer com hashis sem lembrar do momento em que primeiro aprendi a usa-los: as mãos que já há uma boa dose de anos eram minhas prediletas, me ensinando o movimento correto, a maneira de segurar, como manusear os instrumentos. Muitas vezes repassei as lições para outras pessoas - amigos, encontros, algo no meio - e jamais houve uma vez em que não lembrasse dos minutos em que se passaram a minha própria lição. Acho que nunca haverá. 

O segundo gatilho foi mais doloroso. Foi um sorriso na tela que percebi ser idêntico à um sorriso que por alguns meses me acompanhou nas sombras do que não podia ser dito em claro e bom som. Cada vez que ele aparecia, desejava que a cena envolvesse uma máscara: curioso, porque na vida real o que mais desejei, por alguns meses, foi que não existisse cobertura alguma. E lá estava eu, acompanhada de alguém mil vezes mais sincero e merecedor, contendo as ativações nada bem vidas de algo que não gostaria de lembrar. Engoli em seco e aguentei, pois essa não é uma bala que pode me ferir mais.

A memória e o cérebro humano são tão fascinantes, loucos e propensos a surpresas. Nos torturam com memórias felizes que ganharam contexto muito menos contente com o passar do tempo, e nos desafiam a tentar entender o que se passa em uma relação humana com base em todas as relações e sentimentos do passado. Acho difícil, ao menos para mim, encontrar o meio termo entre as lembranças indesejadas e a maturidade de encara-las. É mais difícil com as memórias que enchem o coração de uma sensação quente, já que as amargas podem ser mais facilmente enterradas sob o peso do presente. 

Não me sinto indecisa, pois sei exatamente o que fazer. Mas, enquanto puxo um outro tipo de gatilho em direção ao alvo no qual escolhi mirar, uma memória é ativada e sofre pela boa sensação que não quer abrir mão. Ela é muito mais forte do que as agridoces: pungente, imbecil, esperançosa. E essa é a única para qual aponto o cano de uma arma quase verdadeira e decido mata-la mais uma vez; sabendo que aparecerá novamente. Sempre apareceu. Mas, quem sabe, um dia não mais irá - só não sei prever quão grande será a falta que me fará. 

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3 comentários

  1. Simples, profundo e lindo.
    Gostei bastante do texto.

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  2. Simples, acima de tudo, e real em sua profundidade. Ficou realmente muito lindo, está é minha primeira visita ao blog e com certeza voltarei.
    - Ana Beatriz, Quinze Veraneios

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  3. sem palavras vc toca as pessoas ao seu redor mariana muitos beijos e que sua vida seja sempre magica e vc continue a fazer bem a tds a sua volta :)

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