25 março 2014

Naquele Momento
















A nébula NGC 6302 também é conhecida como Nebula Borboleta.

#1
Não gosto de vinho, mas gostava daquele cheiro que me lembrava de vinho sem ser de fato a bebida. Misturava-se com o cheiro da garoa, com a expectativa do dia, e a grama molhada que dava voltas no prédio. Não era alcoólico, mas me ruborizava e deixava leve. Naquele momento, eu flutuava em uma nuvem particular.

#2
Há algo de muito especial em observar um sorriso tão de perto. Quando dois narizes se encostam, acho que qualquer um fica levemente estrábico se tentar encarar os olhos da pessoa a sua frente. Talvez seja por isso que olhava para aqueles lábios: os cantos se levantavam não completamente para cima, mas um pouco como uma linha reta que se curva levemente em cada final. E essa linha sentia minha falta – naquele momento, ela era só minha.

#3
Sentia cada palpitar do seu coração bem abaixo da palma da minha mão. Senti que estava vivendo em um capítulo a parte daquela história, que não se encaixava com os demais e nem no meu raciocínio. Não conseguia saber o que falei, só que naquele instante o rosto que tentei beijar se virou para mim. Abaixei a cabeça e entrei no ônibus, onde abaixei mais uma vez o rosto; dessa vez sobre o colo de uma amiga. O dono de outra boca conhecida fez carinho nos meus cabelos até eu dormir de tanto chorar. Naquele momento, não soube quanto tempo a viagem até em casa levava.

#4
Sentava-me na frente do carro, com a mão de outro entrelaçando os meus dedos com os seus. Usava a camiseta de uma das minhas bandas prediletas e dei um sorriso cínico. Eu o via nervoso no banco de trás, olhando para as mãos e depois para a janela do carro. Algumas horas depois, olhei de relance para seu rosto enquanto um ídolo cantava sobre o silêncio. Naquele momento, tudo pareceu irônico.

#5
Ele sentia raiva, e eu conseguia perceber isso da outra ponta da mesa. Um par de olhos azuis estava sendo tudo menos sociável, e ele também não queria se esforçar para ser. Minhas mãos acariciavam outros cabelos agora. Eu vi que ele viu. E eu sabia que ele sabia. Naquele momento, desejei que estivesse sozinha em outro lugar.

#6
Apesar de não saber, ele me ajudou a sair da tormenta. Ele me mostrou que ainda havia um erro pelo qual se arrependia, e eu sai de um erro para ir de encontro ao que acreditava que era um acerto. Eu queria ver uma luta não por ela, mas porque havia um duelo muito maior do meu coração com a lógica: parecia que o órgão estava determinado a bater mais rápido que um beija-flor em cada despedida. Naquele momento, voltei para um nuvem com cheiro de vinho.

#7
Nunca aprendi a separar uma música matematicamente, apenas emocionalmente. E quando seus dedos dedilhavam o violão tocando sobre lágrimas de um dragão, eu poderia ter separado cada acorde e o amado até morrer. Naquele momento, o amei até morrer dentro de cada som, cada nota, cada movimento. 

#8
Já era um recorde de dizer mais “tchaus” do que “olás”. Não queria jamais largar daquela camisa branca, sabendo quanto tempo passaria longe. Me senti tão pequena, mais do que já me sentia ao encarar a torre humana que eu abraçava como uma criança assustada. Poderia ter pensado sobre mim mesma como a heroína romântica, mas no fundo sabia que parecia uma criancinha. Naquele momento, não liguei e me aninhei para perto, próximo do seu peito.

#9
Foi a segunda vez que senti seu coração bater ensandecido abaixo da palma da minha mão. E não entendi o que dizia, o porque se contradizia, o porque de nada. Quando tentei lhe beijar, ao contrário do que havia feito há anos atrás, sua mão foi direto para minha nuca e sua boca roubou meu ar até que eu só respirasse ele. Ele, ali comigo. Ele, falando de para sempre. Ele, com sua boca salgada de suas próprias lágrimas. Naquele momento, havia mais ele do que eu no portão, enquanto eu recebia o último dos últimos beijos.

#10
Ainda é estranha a sensação: uma nuvem cheia de coisas não ditas, de não explicadas. Sinto um pouco que a nuvem é mais minha, mas pode ser porque não aguento o pensamento de ser mútua. Não sei se ele percebe que não consigo abraça-lo como abraço todo mundo: não consigo soltar o meu peso, com medo de que eu inteira desabe em algo que nem sei se existe dentro de mim. Por isso, nunca ponho o peso em seus braços. As vezes parece que me desligo um pouco do momento, para não cair numa tentação existente de solve-lo. As vezes também prendo a respiração para não sentir seu cheiro. Em todos esses momentos, sinto curiosidade de saber se é igual. E ai inspiro, só um pouco, naquele momento.

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Mari Santarem
26/03/2014, escrito enquanto ouço um dedilhar de Tears of the Dragon que já acabou há muito tempo. 


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2 comentários

  1. "Às vezes também prendo a respiração para não sentir seu cheiro"... Não consigo expressar o quão plenamente essa frase descreve vários momentos da minha vida.

    Mari... Gostaria de ter o talento de expor um pouco da minha alma como você faz com a sua! Que texto (ou coletânea?) lindo. Me senti do seu lado o tempo inteiro. Como leitora que te acompanha, tenho palpites do que se trata o texto, é claro, mas vamos deixar as coisas do seu coração onde elas pertencem: dentro dele. Apenas com uma janelinha como essa pra podermos espiar e nos inspirar.
    Um beijo no coração!

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    1. Adorei esse texto mari, expressa tão bem o sentimento que nós temos ao amar alguém, e parabéns por ele, leve e profundo ao mesmo tempo
      Beijos!

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