23 junho 2012

O lado errado do trem



Dizem – e o “dizem” se refere aqueles “eles” que ninguém nomeia, mas todos conhecem - que você deveria fazer uma coisa que te assuste todos os dias. Talvez eles queiram que você de fato planeje algo, ou mesmo estejam sugerindo que você pule numa situação quando ela aparecer na sua frente. Não creio que estejam dizendo para se deixar cair em uma situação que dá medo sem ter qualquer controle. O momento em que você sorri um sorriso antigo e enferrujado, que guardou em algum canto empoeirado do seu arsenal de expressões faciais, e de repente é totalmente absolvida na sensação de que você está se enfiando em algo para o qual não estava preparada.

Não me entenda errado; eu gosto de sentir certo receio, um medo, um frio na barriga. Já escrevi uma boa dúzia de vezes sobre a sensação de queda livre, mas sempre me referindo àquela em que eu sei que tudo dará certo, que não irei bater no chão. Essa não foi assim; foi uma mistura estranha de eventos, de cedro, de doce e de completa falta de noção. Disse que iria colocar cinco exércitos em campo, mas eu achei que não haveria contra-ataque. Especialmente não um completamente cego sobre a situação.

Começo a acreditar que sou o tipo de pessoa que precisa ter o controle sobre meus próprios sentimentos. Nos últimos anos, acho que me tornei especialista em escolher o que eu devo sentir – é claro que houveram momentos de dúvida, mas no geral eu evito apenas e justamente o sentimento que me desprende do que posso segurar nas mãos. A última coisa que preciso, na lógica, é de algo que paralise o progresso – na prática, é a primeira que seria necessária.

No caminho para casa o trem entrou na plataforma pelo lado diferente do usual. Mais vazio que de costume, mais fora do comum, mais extraordinário. Sem pensar, coloquei a cabeça para fora da janela e senti o vento, mais suave do que em meses. Observei a paisagem que poucos usufruem,a visão sem prédios de São Paulo, a noite com mais estrelas do que em outros locais. Não havia mais nada.

Uma vez disse que as melhores coisas são as que começam e você não tem certeza de como. Não sei como coloquei a cabeça para fora da janela do trem, do mesmo modo que sei que não irei fazê-lo novamente justamente pelo perigo, por não controlar o que vem há na frente. Mas, naquele instante, enquanto sentia o sangue se espalhando em cada dedo, o roçar delicado dos meus cílios batendo nas pálpebras, o cheiro de mato e de cedro fresco... Ali eu senti que estava livre. Só um pouco, só o suficiente para uma única vez sem controle.

Ao sair do trem, olhei saudosa já para as árvores que foram a única plateia da minha liberdade momentânea. Deveres me chamavam. E com os passos apressados, sai da estação sabendo que o trem continuaria seguindo pelo lado contrário dos trilhos só durante esta noite. 

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10 comentários

  1. Lindo texto,Mari!!!
    quando vai sair o vídeo/ou post sobre o ballet??
    estou ansiosa.
    beijinhooss,tô te seguindo flor!

    http://pink-makes.blogspot.com.br/

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  2. Adoro seus textos... me perco no tempo!!!

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  3. Mari, adoro seus textos, sempre tudo muito íntimo, nos aproxima um pouquinho mais de você, talvez seja por isso que nós aqui do outro lado do computador nos nomeamos, suas amigas... Já me falaram algo parecido com isso uma vez, sobre fazer algo do tipo, vez ou outra; O difícil é conseguir superar os medos...

    (Mari, estou terminando um livro, postei o capítulo 1 num tumblr, ficaria muito feliz com sua visita por lá:
    http://ninhodefogo.tumblr.com/ )

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  4. Nossa, que texto magnífico!
    Essa sensação é mesmo inigualável, não é?
    Mas a sentimos realmente pouquíssimas vezes...
    Senti a vez que corri por um pier de madeira, até a ponta dele, apenas para olhar o por do sol, me esquecendo de todas as falhas, falta de tábuas de madeira no chão, e que a madeira que o constrói está completamente insegura, podendo se quebrar com uma pisada mais forte.
    Quando estava voltando, após o momento de êxtase, quase não conseguia passar pelas falhas, e pensei em como cheguei até lá.
    Mas foi muito mágico!

    beijinhos!

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  5. Nossa Mari, conheci seu canal do Youtube a pouco tempo mais adooooorei, adooorei você, seus videos, você realmente é muito carismatica, e assistir quase todos os seus vídeos!

    Me apaixonei pela sua franja, Qual o corte dela?

    ♥ La Petite Thaís!

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  6. Mari, você escreve muito bem! Poderia investir na carreira de escritora também, além de moda e história da arte. Com certeza compraria seus livros. Você é boa em tudo que gosta e se dedica à fazer. Parabéns! Continue sempre assim!

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  7. Mari, que texto lindo! Todos gostamos de uma queda livre, mas só nos deixamos cair quando temos a certeza de que abaixo de nós uma cama elástica nos aguarda, para nos impulsionar de volta ao topo sem termos que escalar.
    Aprecio demais a simplicidade das sensações que você descreve em seus textos, e ela me emocionam até dizer chega, pelo simples fato de que todos sentimos estas coisas. Todos compartilhamos estas sensações.

    Parabéns pelo seu trabalho que está melhorando muito a cada dia.
    Beijão!

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  8. Mari, gostei muito do seu texto!
    Realmente eu sou muito parecida com você, de nunca querer estar numa situação a qual eu não estivesse preparada. Porém, quando de repente você resolve seguir, por um instante pequeno, seus instintos e descobre resultados incríveis é realmente revigorante, faz você sentir que seus dias não estão passando por entre os dedos...

    Bom, é isso, vamos viver intensamente, é o que dizem...(:
    beijos

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  9. Mari, você escreve divinamente, tem um texto que não cansa e ao mesmo tempo te prende! Se puder dá uma olhadinha no meu blog:
    www,vestidaprapasseio.blogspot.com.br
    Luciana de Bh♥

    O começo de blogueira é muito difícil!!

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