01 dezembro 2011

exumação

"Como o bisonho ator que, porque se arreceia,
Do palco, sai daí, sem haver dito nada,
Ou como quem, tendo a alma a estuar, de raiva cheia,
Pelo excesso de força há de tê-la infirmada,
Assim, pelo temor de te falar, esqueço
O cerimonial que impõe do amor o rito,
E a força do meu próprio amor perder pareço,
Porque pesa demais seu poder irrestrito.
Deixa os escritos meus, então, ser a eloquência
Do meu íntimo peito, os mudos mensageiros
Que, mais do que esta voz, mesmo acesa em veemência,
Pleitearão para o amor prêmios alvissareiros.
   Ah! aprende a ler o que o silente amor escreve:
   Ouvir com o olhar e o dom que ao amor, só, se deve."

Soneto XXIII, William Shakespeare


Você já imaginou cenas de reencontros inesperados na chuva. Não é uma pergunta. Se você nunca imaginou, acabou de bolar uma cena exatamente assim na sua mente. Aquele grande momento, a cena épica, os violinos no fundo. Em meio à uma letargia, pode parecer que é necessário um desses momentos grandiosos pra salvar a nós mesmos da obscuridade cinza. O acontece depois dele é o problema.

"Ir com muita sede ao pote". Será que é isso? Ao ponto de amor, paixão e tensão sexual serem misturados e jogados ao bel prazer da pressa inerente aos emocionalmente entusiasmados em demasia. Nem todo amor acaba em casamento, nem toda paixão e tesão acabam em uma cama. Por que há tanta pressa de um final feliz? Do "felizes para sempre"? O segundo mais precioso talvez seja justamente aquele instante em que tudo é nada sem a pessoa do lado; e não há valorização desse, que acontece em um olhar, ou nas mãos dadas. Ou quando se está longe e sabe-se que o outro também está com você, mesmo que distante.

Esses acontecimentos não duram mais de um instante. É uma fisgada não dolorida no coração e um aperto na garganta, um sorriso que é reprimido no travesseiro. Para que cobrar mais? Pode ser que seja eterno, ou pode durar só mais duas horas. Faça esse milésimo roubado dos transes diários valer a conta.

Um dia no futuro você pode se encontrar com uma folha vazia e a divagação feita sobre os corpos exumados espalhados nas músicas da sua lista de produção. Ou com o aço intocado, ou com o tecido rasgado, ou com o abraço que te espera logo na sala. Você não sabe. Eu não sei.

As coisas podem ser diferentes e mudar em todo o instante. Você nunca saberá se não entender que o eterno é o que está sendo gravado naquele instante na conversa telefônica, na carta, nas palavras não ditas.

Anos depois você pode querer voltar no tempo; e sentir que não faria nada diferente, pois as estradas quebradas te levam aos lugares mais inesperados - e, por vezes, muitissimo felizes. E elas podem se dividir em encruzilhadas que te levarão aos novos destinos da sua estória. Ou para o de antes.

Você nunca saberá. Mesmo que haja o primeiro olhar depois da chuva, não dá para saber se haverá um último. Não dá para saber o que alguém sentiu até que se pergunte para essa pessoa. Você nunca saberá se tem a coragem até o momento que a confrontar. Espero pelo confronto.

Quem sabe o que eu escreverei daqui a três, quatro, cinco anos. Quem sabe se você será a mesma lendo. Se a pena da águia significa que ela voltará ao ninho ou se é a marca que um dia ela esteve por ali. Quem sabe quantos graus a roda da fortuna girará. Quem sabe eu não sou apenas a tola que pensa sobre a vida perto do final do ano.

Quem sabe o que estão pensando nesse instante.

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18 comentários

  1. Adorei Mari, uma expiração muito bem descrita e escrita, parabéns,cada dia mais dá vontade de ler seu blog. Beeijos Niéli Cicarelli

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  2. Incrível como você escreve bem... diante de um mundo virtual que não dá o menor valor para leitura..e principalmente, para a escrita...bem escrita!!! Ler seus posts é um presente.. Assim sendo, Mari, obrigada por nos presentear com algo tão especial, tão caprichoso, tão bem feito... Deus lhe garanta muito mais inspiração para que suas ideias nunca findem...e que nossos jovens se inspirem em ti!!!

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  3. Adoro Shakespeare! Principalmente aquela longa mensagem Beijos não são Contratos.
    É bom quando a gente olha pra trás e pensa que não faria nada difernete ^^ Mas se achar que sim, também não tem problema.

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  4. Adoro Shakespeare! E você escreve muito bem :)

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  5. Mari, lendo seus textos só consigo pensar em uma coisa: "Você nasceu pra isso". Nunca havia comentado antes, mas sei que você já deve ter ouvido essa frase antes, só queria deixar registrado que uma completa estranha admira seu lindo dom. Bjs

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  6. Nossa perfeito para o momento que estou passando. Parabens por escrever tão bem, adoro td o que vc faz.

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  7. AAAAH mari,eu ando passando por algo assim.
    vi você num blog hoje(ou pelo menos parecia vc)

    http://tudinhodecabelos.blogspot.com/2011/05/bobs-no-cabelos-maneiras-de-enrolar-os.html

    ;)

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  8. oi amore tô seguindo seu blog adorei , se puder da uma passadinha lá no meu e participa do sorteio de 2 bijuterias , pois tem poucas meninas participando então a probabilidade de ganhar é maior ok ? bjinhos

    http://licia-carla.blogspot.com/

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  9. Lin-do! Você me incentiva a gostar mais de mim com seus vídeos e a voltar a escrever com essas crônicas! Precisava ler algo assim, estava endurecendo meu coração. Beijos, Mari!

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  10. Como disse no outro post, é incrivel como vc consegue descrever com palavras coisas que vem do fundo -muito fundo- do coraçao...eu tb me despedacei muitas vezes,e por muito tempo parecia que nada poderia me colar de novo,mas olha só,estou inteira de novo,com marcas de rachaduras, claro, mas inteira... apesar da beleza dos seus ultimos posts Mari, estou começando a ficar preocupada... está tudo bem? tem algo deixando vc triste? bejim bejim no coração querida

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  11. oi ja estou te seguindo pode conferir...

    será que vc poderia me ajudar e me seguir tb...

    www.makepopular.blogspot.com

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  12. Quase chorei lendo seu texto, precisa ler isso hoje. Muito perfeito mesmo. Você tem um dom especial e espero um dia ler um livro seu. Ou vários.

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  13. Ola,
    Estava passar por ai encontrei seu blog.
    Ele lindo,Parabéns
    Dá uma passadinha no meu blog,também ¿
    Belo post...
    E já assisti todos seus turial (video)
    Beijinhos Mil,
    space-for-girls.blogspot.com

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  14. Quem sabe as tolices é que fazem sentido e os interesses sejam parecidos...

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  15. Ler isso e ouvindo uma música só de piano ao fundo é de se emocionar, sem contar a forma como você transcreve os sentimentos e como é fácil - desculpe a invasão - se identificar. Obrigada pelo preenchimento, Mari :)

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  16. Lindinha, achei seu blog tão massa q até postei vc lá em casa também. Espero q nao se importe viu! Beijao e mande sinal de fuma tb!
    http://comendolivros.blogspot.com/
    Elenilson

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