30 novembro 2011

Está tudo bem


Certa vez - e não "era uma vez" - uma pessoa que eu considero sábia me disse que perdoar é conseguir lembrar-se do momento e não sentir mais a mesma sensação. Já fazem quatro anos que dois momentos me trouxeram uma dor que por muito tempo pareceu ser excruciante. Ambos se metamorfosearam em uma massa amorfa em que eu já não sabia qual era qual, quem causou o que, o que eu amei e deixei de amar, a irmã, a paixão e os restos indecifráveis das relações humanas.

Poucas pessoas que me conhecem tem idéia do quão grossa foi a máscara e armadura que vesti durante os meses que se seguiram, o um ano. São as amigas verdadeiras, as mãos mais carinhosas, os olhos verdes, azuis e castanhos que eu consegui encarar e confiar. Tudo tinha a ver com confiança: a que eu tive demais em quem não merecia, a que eu jamais havia tido em mim mesma e a que nunca foi exercida de verdade.

Aos poucos eu senti surgirem rachaduras doloridas em todo o metal denso que vesti e fui deixando pedaço por pedaço dele no caminho. No momento em que olhei pela primeira vez para mim mesma sem ter as projeções esperadas pelos outros, foi quando desvendei o que de fato cada dor passada era.

O primeiro perdão foi doloroso. Foi encarar o medo, olhar nos olhos uma vez amados e perceber que eles não tem coragem de encarar os meus. Houveram abraços, e perguntas vazias, e sorrisos educados. Quando ela virou as costas, não havia asas de anjo; nem de demônio. Toda minha raiva ebuliu dentro de mim durante o encontro e me deixou com o choro depois. Nunca mais senti a dor.

O segundo perdão percorreu um caminho demorado. Nunca houve raiva da minha parte - não da pessoa, ao menos. A raiva de certa maneira facilita jamais olhar para o passado e seguir em frente. Não foi o caso. Também não houveram encontros repentinos, nem apertos de mão, nem os típicos "como anda a vida?" envergonhados. Classificaria como uma bandeira branca: o pedaço de pano em que se coloca para dizer que está tudo bem, e mesmo assim sente-se que jamais haverá coragem ou oportunidade para conversar sobre o que de fato aconteceu. Talvez algumas coisas não devam ser discutidas.

Sinto até hoje ressentimento pelo comportamento a lá "Bella" que eu tive; se conhecesse o eu daquela época hoje, iria acha-lo particularmente ignorante quanto à si mesmo. Ou o que viria a ser.

Prova disso é que hoje, ao mexer em uma caixa de lembranças, encontrei envelopes em que o eu-passado escreveu "Não mexer". Uma demonstração grotesca do quão pouco sabia sobre mim mesma, visto que hoje essas oito letras juntas são tudo que é necessário para que meu senso jornalistico entre em ação para descobrir o que é aquilo. Não lembrava o que havia no envelope, como acontece com pouquíssimas coisas que colocamos no fundo de caixas. Encontrei cartões, cartas, embrulhos. E um cristal quebrado.

Lembro que foi uma das sensações mais peculiares; estava com ele na mão, à quatro anos atrás, decidida a lacra-lo e nunca mais olhar. Quando toquei na minha mão, ele se lascou e me cortou. Alguns culpariam energia, má sorte ou simplesmente o destino. O fato é que um quebrou naquele instante, dois ficaram - não tentarei entender o significado dos números.

Hoje eu tirei o cristal da caixa, sem mais ter medo de olha-lo ou encara-lo fixamente como se houvesse uma ponte de ligação do outro lado. Não sei se há, mas sei que não a temo mais.

Talvez, e só talvez, a melhor maneira de chegar ao presente seja colocar o passado contra a reflexão do sol. E ver que, assim como o cristal, ele reflete todas as cores.



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28 comentários

  1. simplesmente o texto mais lindo que eu li até hoje.. e veio no momento certo da minha vida.. uma epoca em que tudo que eu jurava "tudo" na minha vida se despedaçou. mas vc mari com isso me ajudou. obrigada por escrever.

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  2. Adoro seus posts! Os mais bem escritos e inspirados da blogosfera!
    Beijinhos!

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  3. Meu Deus, Mari! Eu amo escrever, e eu me maravilhei com o seu texto ao mesmo tempo que eu me identifiquei! LINDO, lindíssimo! Escreva mais textos assim, escrever sobre as dores é libertar-se e abrir-se de uma forma maravilhosa, é desarmar-se de todo o medo, vergonha ou senso crítico e ser regida pelo coração!
    Eu amei o seu texto, de verdade!
    Parabéns por tê-lo escrito, e também por ser essa pessoa maravilhosa que vc é, que sabe perdoar!
    Beijos

    Taís

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  4. muito lindo o texto, me inspirou realmente! o tempo cura tudo, beijos.

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  5. Lindo Mari, lindo mesmo. Parabéns, isso prova que você se conhece e sabe como se expressar com as palavras. Genial. Beijo.
    p.s: tenho permissão para divulgá-lo com seus devidos créditos em sites pessoais? como tumblr e facebook?

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  6. Nossa Mari, essa me toco bem la no fundo... Me lembrei de tanta coisa que passei, tantas vezes que chorei por coisas bobas e fúteis. Mas o tempo cura feridas e ensina perdoar... Se bem que até hoje, apesar de eu ser nova, durante 4 anos travei briga feia com uma pessoa. Era bate boca todo dia, pois estavamos na mesma sala de aula... Mas no último dia que a ia gente se ver - pois aquela pessoa iria embora - nao brigamos, pelo contrario, nos últimos minutos fizemos as pazes, mesmo depois de tanta briga e discussão - o que foi uma coisa muito dificil para ambos. Mas ainda sinto que não foi um perdão completo, mas o primeiro passo foi dado. Já faz quase 1 ano que não o vejo mais, mas me sinto mais tranquila por saber que agora, mesmo longe, estamos em paz...

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  7. Você realmente gostava dela não?! Já passei por isso e sei como dói. E no meu caso ainda houveram julgamentos, de que eu não era "boa" o suficiente. De que eu não era "digna" o suficiente para a tal amizade. O engraçado do perdão é que ele liberta né?! Fica-se leve e limpo! Como você, passei por transformações e hoje confio em pouquíssimos! Cabem em uma mão! Isso é triste? Pode ser. Mas eu não sou mais boba, e sabe, estou melhor assim. A vida é uma completa superação! Das dores, do passado, de nós mesmos. Adoro aqui "Mari" e adoro o canal no youtube! Se quiser, dá uma passada no meu tumblr: www.vezessete.tumblr.com. Fica bem. Thais.

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  8. Muito lindo e sincero o que você postou, mari. Dá pra ver que foi de coração e escrito com os seus verdadeiros sentimentos.
    Tenho uma dificuldade imensa em perdoar, tem uma pessoa muito querida que, por mais que eu tente (e eu já tentei várias vezes), acho que nunca vai ganhar meu perdão verdadeiro.
    Depois de tantas traições e mentiras, acho que me tornei uma pessoa muito medrosa, principalmente em relação a amizades e a confiança. Geralmente sou guiada pelos meus instintos e pelo meu coração. no entanto, eles também não são certeiros e por vezes me decepciono.
    Fico feliz que tenha conseguido perdoar. Mas perdoar de verdade, de corpo e alma, e ver que tudo isso te trouxe ensinamentos e o mais importante: te fez crescer.
    Um beijo!

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  9. Tenho uma palavra que talvez defina bem o que senti do seu texto: maturidade. Sou só um pouquinho mais velha do que vc (tenho 25), mas é engraçado como me sinto à vontade para falar que já passei por muitas coisas, mesmo sendo jovem. Qualquer experiência que vivamos, por mais amarga e cortante que possa ser, um dia poderá ser superada, desde que o indivíduo queira e esteja pronto para isso. Parece que chegou o seu momento. :)

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  10. O que eu vi nesse texto foi uma pessoa que se conhece muito bem.
    Mari, eu me preocupei muito com você quando soube dos acontecimentos na sua família - e falo isso de coração. Ver que você, mais uma vez, deu a volta por cima de uma situação difícil é reconfortante. Por trás dessa menina fofa, meiga, apaixonada por maquiagem e moda e com cara de ingênua, existe uma Mari super forte, madura e que se conhece o suficiente pra saber lidar com o que sente.
    Parabéns, Mari.
    Um beijo
    Bruna

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  11. Nossa Mari, é incrivel como vc consegue descrever tão bem com palavras o que alguns -como eu mesma- só conseguem trancar no coração...tb passei por um episódio assim, como ja contei para vc em um email, nao sei se lembra, e tb tive minha fase a la Bella,e exatamente como vc senti raiva de mim msm por ter confiado em quem nao devia e ter deixado de lado quem mais me merecia...tb escrevi coisas q revelavam um eu totalmente doente e incapaz,mas ja as queimem e sei que estou bem...hj penso que td aquilo me aconteceu para fazer de mim um ser forte para tantas outras coisas q me esperavam e q enfrentei com muita graça e força, e me orgulho disso =) parabens para nós e todas as outras q superaram suas trevas e hj olham para trás com um sorriso

    BY HISINHA1012

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  12. Acho que todas aqui que já passaram por uma dor parecida sabem o que você sentiu,e ainda sente.
    Assim como você, faz quatro anos que não falo, não vejo e nem tenho noticias dessa amiga, foi difícil no começo, eu me lembro de ter chorado e de sentir aquele vazio por um bom tempo. Hoje já não me sinto assim, consigo olhar pra trás sem sentir aquele nó na garganta e sem ter lagrimas se formando em meus olhos.
    Acho que tudo na vida passa e a cura é o tempo...

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  13. Mari é você que escreve ?
    É muito lindo adorei.

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  14. muito bonito, inspirador...


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    bjos

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  15. texto maravilhoso Mari! Adoro o modo como você escreve, poderia ficar lendo horas e horas seus textos. Quem sabe um dia poderemos ler um livro de sua autoria hihi

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  16. Que texto bonito, Mari! Parabéns! Realmente só o tempo nos ajuda a enxergar o que passou de maneira madura e imparcial. Acho que conseguiste isso e, mais ainda, escrever também de maneira madura e imparcial sobre o que um dia foi uma dor tão íntima. Penso que somente superamos algo quando conseguimos falar abertamente, ou escrever, como no teu caso.
    Tudo de bom pra ti! Beijoca.

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  17. Muita gente acha que o perdão vai liberar o outro, ou a falta deste fará mal ao outro. Mas a verdade é que quem se aprisiona com esse sentimento é quem não perdoa, e só há liberdade quando há perdão.
    Gostei do texto, tocante!

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  18. Lindas palavras! Acho que todos nós passamos por isso em um momento da vida. Ninguém nasce sabendo "dosar" a confiança e nem sabendo como lidar com a dor. Crescer e deixar o tempo agir sobre nós é o melhor remédio. :)

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  19. Ah Mari, infelizmente também passei por isso e foi recentemente. Acredito que Deus sabe o que faz e trilha nosso destino da melhor maneira possivel. Mais algumas situações que encontramos pelo caminho são bem tristes e confusas. Não vou dizer que a raiva não faz parte dos meus sentimentos, mais ela não impera tanto quanto a minha incorformidade diante das atitudes e palavras que vi e ouvi. Alguem que um dia foi "sua melhor amiga" se transforma em alguém que hoje posso dizer que não faço idéia de quem seja ...não por querer ignorar o fato, mas por ver que quem eu conheci durante anos, era simplismente uma capa, uma mascara...Bom desculpe o desabafo mari...
    Beijos, adoro vc flor!

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  20. Ah Mari, infelizmente também passei por isso e foi recentemente. Acredito que Deus sabe o que faz e trilha nosso destino da melhor maneira possivel. Mais algumas situações que encontramos pelo caminho são bem tristes e confusas. Não vou dizer que a raiva não faz parte dos meus sentimentos, mais ela não impera tanto quanto a minha incorformidade diante das atitudes e palavras que vi e ouvi. Alguem que um dia foi "sua melhor amiga" se transforma em alguém que hoje posso dizer que não faço idéia de quem seja ...não por querer ignorar o fato, mas por ver que quem eu conheci durante anos, era simplismente uma capa, uma mascara...Bom desculpe o desabafo mari...
    Beijos, adoro vc flor!

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  21. @mkelly

    Cada letra, vírgula e ponto - e todas as palavras ditas e não ditas também.

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  22. Esse lindo e maravilhoso texto se encaixa perfeitamente ao que estou passando!!!

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  23. fiquei impressionada como você escreve bem, e como o texto me tocou mesmo nao passando por uma situaçao parecida.
    Já que estou aqui aproveito p/ dizer que apesar de nunca ter comentado eu sempre leio suas atualizaçoes e gosto muito de tudo. Mas diante desse texto nao pude deixar de deixar meus parabens!
    beijos

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  24. Nossa, Mari.
    Quanta profundidade! Fiquei emocionada ao ler!

    Parabéns, vc escreve com muita delicadeza e deixa o texto muito cativante, emocionante e gostoso de ler!

    Beijos
    :*

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  25. Uma história de Relacionamento Intrapessoal...
    Texto perfeito Mari, um dia ainda vou ler um livro q vc escrever!! =D
    Bjs e Carinho ;**

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  26. Oi Mari !!!

    Nossa estou comovida...Comovida porque acho que a grande maioria já passou por isso, infelizmente. Sei que não é facil superar a dor, mas tenho a certeza que junto com o tempo vem a sabedoria. Sabedoria essa que nos torna pessoas melhores, com mais auto confiança pra suportar as varias "pedradas" que ainda temos pela frente.
    Não desista de ser feliz nunca Mari !!! o importante é saber quem você é sempre seguir em frente!!!
    Pelo menos é isso que faço até hoje.....

    beijus
    se cuide
    Quel

    www.frufrudemulher.blogspot.com

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